You got me on my knees,
You steal all my innocence
Domingo, 13 de Maio de 2012
Careless Whisper | Capítulo 1

 

O final de tarde estava a ficar, quis parecer-lhe, algo agreste. O seu cabelo serpenteava no ar sempre que o vento assobiava mais forte. Virou a cara por instantes para contornar as pontas agudas dos seus cabelos negros que a agrediam delicadamente e depois seguiu a pé, de mochila às costas, carregando na mão a única mala que fizera, falsamente descontraída até á paragem que ficava a quase dois quilómetros de distância dali. Enxugou o rosto várias vezes pelo caminho; mas as lágrimas nunca cessaram.

Kyleigh arrastava-se ao longo da estrada, como que arrependida por ter alguma vez pensado em deixar Ohio. Não levava muita coisa consigo, apenas o essencial, porque um dia – pensava ela – voltaria. A casa era sua por herança e Constance por ali ficaria, por isso, não lhe era de todo estranho ou louco dizer que um dia, talvez realmente voltasse. Os seus olhos prendiam-se firmemente a uma distância vazia, secos como se tivessem drenado tudo o que restava da rapariga. Hirta, inexpressiva, olhos baços muito tristes, caminhava sem esperança no futuro até à paragem, que já se via ao fundo no horizonte. Meia hora antes passara o autocarro das seis e meia da tarde que ela deveria ter apanhado; mas a sua atenção sofria de um vácuo distúrbio e só deu por ele passar quando já ia bem longe de si.

Parou, olhou por instantes para nada em concreto e suspirou com grande pesar, olhando para o bilhete e para os horários das camionetas que trazia na mão que não segurava a mala. Analisou-o muito rapidamente e ficou extremamente irritada quando percebeu que o próximo autocarro seria às onze horas da noite. Definitivamente não se sentia com muita sorte. Parecia que o mundo se unira contra ela, será que algum dia conseguiria fazer alguma coisa acertada? Claro que aquilo seria a sua enorme frustração a falar por si, depois de tudo, Constance havia falecido, e ela só por si sentia-se mais perdida que antes. A quem deveria recorrer quando durante a noite a aparência muda do escuro a viesse assombrar?  

Abanou a cabeça, sacudiu as lágrimas com as costas das mãos e seguiu adiante até à paragem. Pousou a mala que trazia na mão e manteve-se de pé durante as primeiras horas. Não estava sequer a tentar livrar-se da dor, ela batia-lhe e perdurava como se a morena fosse algum tipo de atractivo recarregável. Às nove horas, sentia-se terrivelmente cansada. Não dormia há quase dois dias e caminhara quase uma hora a pé para ali chegar, de modo que todo o seu corpo implorava por algum conforto. No entanto, o melhor que arranjou foi o chão. Sentou-se na beira do passeio e pousou a cabeça nas pernas flectidas. Quando fechou os olhos, não conseguiu sequer dormitar, a imagem distorcida da tia que nem conhecia, preocupava-a um pouco. O facto de não querer envolver-se com a família que nunca conhecera não implicava que tivesse de ser fria ou arrogante a ponto de não enxergar que o seu atraso de muitas horas poderia levar a tia a ter um surto de preocupação. Também não tinha como avisá-la, afinal não a conhecia nem por foto.

Kyleigh estava melhor sozinha. Pelo menos ela considerava que seria melhor desse jeito. Envolver-se em demasia poderia em algum ponto da sua estadia em Farmington, ser sinónimo de desilusão. De perda, uma outra vez. Por isso, a morena teria um grande desafio pela frente: aprender a confiar.

Esperou. Esperou pacientemente e quando ouviu o ronronar de um motor ergueu o rosto, achando por instantes que seria o autocarro das onze. Não conseguiu, contudo, enxergar direito quando aquela altura a que se encontrava, a luz dos faróis lhe feria a susceptibilidade da vista. O idiota parecia levar os máximos ligados como se pretendesse cegar alguém. No final, fora apenas um automóvel descapotável que passara a toda a velocidade. O único na verdade. Eram vinte para as onze e naquele tempo todo que ali estivera, apenas um outro veículo por ali passara. Incrível a insegurança que se podia respirar por ali. A estrada era pouco iluminada, estava a ficar frio e de repente aquela sensação vazia tornou-se algo sombria. Estava sozinha, como que num deserto.

Levantou-se, de outra forma iria congelar; sacudiu as calças que trazia vestidas e arrastando os pés no chão circulou lentamente de um lado para o outro. Parecia descontraída; mas a quem quereria ela enganar? Estava raladíssima com a reacção da tia quando não a visse chegar no autocarro das seis e meia. Parecia distante e algo arreliada, de qualquer forma, não parecia interessada em explicar o que havia sucedido a Amelia. Não tinha uma boa desculpa. ‘Perdi o autocarro’ parecia-lhe tão estúpido quanto dizer-lhe ‘Nem o vi passar por mim’. Correspondia à verdade, decerto; mas era ridículo.

Desde o velório da mãe, que dormir se tornara uma tarefa complicada. Nas muitas horas que passara no hospital, foram raras as vezes em que descansara; mas podia contar com o calor dos braços afectuosos, na altura muito fracos, da mãe e nessa altura dormia. Pouco; mas dormia. Muitas dessas vezes preferia fingir estar a fazê-lo para quando a mãe adormecesse de cansaço a pudesse lembrar, decorar, olhando por ela a noite inteira. O vazio que trazia no peito parecia que ganhava uma textura acentuada, tomando-o por inteiro, como se a domasse. Era estranho, doía demasiado. O seu discernimento estava claramente afectado e não sabia se algum dia se recuperaria daquele triste incidente. As forças pareciam que lhe faltavam quando mais precisava, sentia as pernas tremelicarem volta e meia e na ausência de Constance o seu passatempo feito loop era chorar. Nem sabia como é que conseguira manter-se tão quieta enquanto ali estivera. Já fazia muitas horas.

Kyleigh acreditava que aquela máscara que usava para esconder o que sentia verdadeiramente lhe daria jeito, só não sabia se aguentaria tê-la consigo durante muito tempo. Talvez um dia desabasse tudo, enquanto isso não acontecesse, iria usá-la até estar demasiado gasta para disfarçar o medo, a angústia e a dor que a consumiam. Ao virar-se para Norte, avistou com grande entusiasmo o autocarro das onze. Finalmente. Pensou rendida. Não estava animada com a sua partida; mas estava cansada de ali estar. Bufou esfalfada e apanhou a mala do chão, estendendo o braço livre para fazer sinal ao motorista.

O veículo era enorme, de pintura gasta pelo tempo. Parou junto da rapariga e quando a porta da frente abriu, Kyleigh hesitou. Olhou com pesar em volta e apesar de pouco ou nada ver com a penumbra que a envolvia, sabia que sentiria saudades daquele lugar.

- Menina! – Exclamou o senhor de bigode farfalhudo que estava atrás do volante. – Vamos, entre que tenho um horário para cumprir.

Kyleigh olhou para ele com um ar sorumbático, como se estivesse perdida e subiu os dois degraus, arrastando a mala consigo. Tirou o bilhete do bolso do casaco e estendeu-o ao senhor que o analisou com um ar carrancudo. As rugas salientes sobre a testa fizeram-na vacilar e questionar o que estaria de errado com o bilhete.

- Algum problema? – Perguntou num breve murmúrio.

- O seu bilhete não serve para esta camioneta. – Respondeu-lhe impacientemente, num tom grosso e rude. – Teria de voltar à bilheteira e adquirir um novo.

Enquanto ele balançava o papel na mão, Kyleigh pousou a mala e tentou explicar o que acontecera. Independentemente do resultado teria de tentar, não podia perder este também.

- Parece-me ridículo, tendo em conta o facto de que a bilheteira fica a mais de 5 quilómetros daqui. – Disse-lhe muito educadamente, tentando controlar o grito sufocado que quase lhe rebentava o peito. – Ouça-

- Senhorita, o bilhete é inválido. – Insistia, com um revirar de olhos desagradável, enquanto enrolava a ponta do bigode farfalhudo no dedo indicador.

- Devido ao horário impresso nele? – Questionava visivelmente agastada. – meras formalidades. Ouça… - Calou-se abruptamente. Não era correcto usar aquilo como desculpa; mas dado que não poderia permanecer em Ohio mais tempo teria de o fazer. – Não passo de uma jovem com dezassete anos, que acabou de perder a mãe. Tenho a minha tutora à espera em Farmington, provavelmente a questionar-se sobre o porquê de não ter entrado no autocarro das seis e meia. E sabe porquê? Porque me foi impossível largar a minha mãe e partir de imediato e quando me apercebi já estava atrasada.

O senhor olhou para ela, talvez algo sensibilizado e Kyleigh percebera então que conseguira obter o seu intento: chamar a sua atenção. Mostrava-se no entanto, céptica e estranhamente admirada consigo própria. A falta de paciência revelara-se determinante naquele momento, obrigando-a a argumentar firmemente o seu ponto de vista. Acabara por confessar o motivo do seu atraso da forma mais fria e imparcial que conseguira. Assustava-a de alguma forma, a sua insensibilidade. Era a prova de que a máscara estaria no seu devido lugar e temia ter de a usar por bastante tempo dali em diante.

- Menina, veja bem-

- Por favor. – Interrompeu-o quase em súplica e de olhos marejados. – Não me resta nada.

Não era possível que tudo lhe corresse da pior maneira desde que a mãe partira. Não queria acreditar que a sua falta de sorte se propagasse de forma infinita; mas parecia que seguia de arresto naquela maré de azar. Estava cansada de ser sempre forte. O senhor torceu o nariz pensativo, mirando o horizonte que desaparecia na penumbra. A morena baixou o rosto rendida e virou-se para sair, limpando os olhos com as costas das mãos. Estava a tornar-se hábito fazê-lo. O silêncio do sujeito era mais esclarecedor que um não directo, por isso para ela não fazia qualquer sentido permanecer ali. Havia descido um degrau quando a voz tenor do senhor a fez parar e olhar com desconfiança por cima do ombro.

- Espere. – Disse-lhe muito rápido. Que não me apareçam os fiscais ou terei problemas. Acrescentou mentalmente, quando se propôs aceitar que a rapariga viajasse na sua carreira. – Lamento muito o que aconteceu. – O olhar do senhor declinou ligeiramente com arrependimento e um toque sublime de pena. – Entre, desta vez fecharei os olhos.

- A sério? – Questionou com um sorriso choroso muito delicado. O senhor devolveu um outro com amabilidade e acenou com a cabeça para que ela entrasse e se acomodasse. – Oh, que Deus lhe pague. – Fungou tristemente. – Muito, muito obrigada.

Ainda a fungar, guardou o bilhete no bolso traseiro das calças e arrastou a mala que trazia consigo pelo corredor estreito do veículo até ao último par de lugares vagos no final do autocarro. O seu andar era meio curvo e irregular, parecia que carregava o mundo às costas e ninguém dava por isso. Pousou a mala que arrastava no banco vago ao seu lado e a que trazia ao ombro pousou-a em cima do colo quando se refastelou no outro banco junto à janela exausta. Suspirou, inspirando e expirando com profunda desolação, uma e outra vez e no final olhou pelo vidro, analisando a penumbra que não a deixava reconhecer mais do que as sombras dos arbustos lá fora.

Passavam tão rápido que fazia os seus olhos arder; mas desconfiava que fosse o cansaço que estivesse já a tomar as rédeas do seu quase infinito auto-controlo. Recostou-se desconfortavelmente e apoiou o braço no parapeito da janela para deitar a cabeça. Queria esvaziar-se de tudo, esquecer o porquê de ali estar, esquecer sobretudo que estava sozinha naquele mundo cheio de ratoeiras e dormir um pouco porque apesar de tudo sabia que lhe fazia falta algum repouso; mas não conseguia. Não conseguia evitar pensar no pesadelo que a sua vida virara de um instante para o outro e chorou copiosamente no silêncio do autocarro.

Sem ninguém por perto, tendo em conta que os únicos passageiros iam nas fileiras iniciais do veículo, chorou por vários, longos minutos até conseguir finalmente fechar os olhos e desmaiar de exaustão como de tantas outras vezes. Não queria fingir que estava tudo bem; mas limitava-se a esconder tudo quanto a atormentava, sobretudo porque não conhecia ninguém naquelas terras longínquas. E doía demais agora. Sentia ser real, agora mais do que em qualquer outra altura e era uma dor tão pungente e aguda que parecia que lhe despedaçava o peito. O seu dormir era pesado, sobressaltado, como se estivesse a reviver algum tormento e permanecesse em todos os instantes, na ponta do iceberg.

Recordava Constance mesmo enquanto dormia. Via-a em inúmeras ocasiões, sabendo de antemão que tudo aquilo não passava de meras actuações, ilusões do seu cérebro lunático e sadomasoquista, e ainda assim de todas as vezes que isso se sucedia Kyleigh recusava-se a acordar. Oh doía muito; mas ela não se importava. Daria qualquer coisa para poder ver a mãe. Gostava de recordar o seu cabelo liso de um castanho achocolatado, as covinhas nas bochechas quando sorria, o brilho sorridente do olhar amendoado, os gestos, as carícias. Sempre que o fazia o seu coração dava um baque tão ensurdecedor que por momentos, achava não ter sido a única a ouvi-lo. Aquela dor pérfida varria-lhe o peito, as forças e o cérebro definhado e cansado que a ludibriava vezes em conta desde então. Não se sentia capaz de recuperar o que perdera.

Kyleigh estrebuchou um pouco e acordou a meio do caminho; mas voltou a adormecer sem ter de se esforçar em demasia. Queria vê-la outra vez. Queria sentir o abraço de Constance só mais uma vez mesmo que em sonhos fosse. O balançar e os tropeços na estrada eram uma constante naquele instante do percurso; mas nem mesmo o desafio dos solavancos a fizeram acordar uma outra vez. Estava esgotada, era singelo, verdadeiro; o seu olhar baço, o seu rosto manchado de olheiras não deixavam margem para dúvidas quanto à veracidade do seu cansaço.

 

Boas tardes, venho deixar-vos os primeiro capítulo deste meu original. Espero que gostem. Outra coisa, decidi que as publicações da história para já ficarão no estado público, de forma a que qualquer pessoa possa aceder a ela. Não estou convencida quanto à adesão, nem me vou preocupar com isso; mas achei que deveria fazê-lo.  O capítulo tem uma hiperligação, quem me conhece em termos de escrita sabe que forneço a maior parte dos pormenores. Quanto ao próximo, vem quando o tiver terminado.

Editado: Aproveito ainda para reforçar a ideia de que se as publicações são públicas, a minha pessoa agradecia o feedback de todos quantos lerem, é importante de forma a melhorar o que escrevo.




Careless Whisper


Kyleigh detestava o Novo México; mas pior que a sua nova morada era a dor que sentia quando finalmente ficara claro que a mãe permaneceria em Ohio a centenas de quilómetros de distância. Não conseguia despedir-se dela e recusava-se a aceitar sob circunstância alguma que o seu futuro tivesse de se prostrar à distância entre ambas. No entanto, estava disposta a dar uma oportunidade a Farmington e á família que nunca conhecera. Uma segunda oportunidade para voltar a sorrir e sentir que alguma coisa ainda faz sentido e que a perda de uma pessoa poderá influenciar positivamente o resto dos seus dias.

SOBRE A HISTÓRIA.


Profile

Ana. 23 anos. 3º ano de Engenharia Informática. Veterana. Finalista. Música. Ler. Escrever. 30 Seconds To Mars. Tokio Hotel. Muse. Linkin Park. Green Day. Black Veil Brides. Three Days Grace. The Pretty Reckless. Within Temptation. Panic At The Disco. Snow Patrol. Kings Of Leon. Paramore. Supernatural. One Tree Hill. Smallville. Gossip Girl. Pretty Little Liars. 90210. Camelot. Game Of Thrones. Drop Dead Diva. Flashpoint. Switched At Birth. The Nine Lives Of Chloe King. Suits. The Vampire Diaries. Revenge. The Lying Game. Once Upon a Time. Ringer. Jane By Design. Grimm. Teen Wolf. The Secret Circle. Heart Of Dixie.


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